O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) apresentou neste sábado, 19 de setembro, uma representação ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo o afastamento cautelar do procurador-geral da República, Paulo Gonet. O documento foi encaminhado ao presidente da Corte, ministro Edson Fachin, e utiliza como um de seus principais fundamentos a recente divulgação de uma fotografia em que Gonet aparece ao lado de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, durante um encontro realizado em Londres, no Reino Unido. A imagem foi encontrada entre dados extraídos pela Polícia Federal do celular de Vorcaro e ganhou repercussão depois de ser divulgada pela imprensa. A Procuradoria-Geral da República confirmou a autenticidade da fotografia. A existência da imagem, no entanto, não comprova por si só a ocorrência de irregularidade, e caberá às autoridades competentes avaliar o contexto dos fatos e os argumentos apresentados na representação. Até a manhã deste domingo, 20 de setembro de 2026, não havia decisão definitiva do STF determinando o afastamento de Gonet em razão do pedido apresentado pelo parlamentar.
Nikolas Ferreira pede ao STF afastamento cautelar de Paulo Gonet após divulgação de foto com Vorcaro
Representação apresentada ao Supremo questiona a permanência do procurador-geral da República enquanto episódios ligados ao caso Banco Master são analisados.
Por Caio Tomahawk
Publicado em 20/09/2026 • 07:30 · atualizado em 20/09/2026 • 07:48

Na representação, Nikolas sustenta que as informações divulgadas recentemente justificariam uma análise sobre a permanência de Gonet no comando da Procuradoria-Geral da República enquanto aspectos relacionados ao caso Banco Master continuam sendo examinados. O deputado classificou os acontecimentos como graves e argumentou que eles poderiam gerar questionamentos sobre a independência e a imparcialidade necessárias à atuação da chefia do Ministério Público da União em investigações de competência das instâncias superiores. O documento menciona não apenas a fotografia, mas também mensagens encontradas no material apreendido pela Polícia Federal. Segundo o parlamentar, referências a Gonet e a integrantes de sua família encontradas nas informações extraídas do aparelho deveriam ser examinadas pelas autoridades responsáveis. Essas afirmações integram a argumentação apresentada pelo deputado e não equivalem a uma conclusão judicial sobre a conduta do procurador-geral. A representação solicita que Fachin determine a suspensão cautelar de Gonet, leve o tema ao plenário do Supremo e envie cópias do material ao Senado Federal, ao Conselho Nacional do Ministério Público e às autoridades envolvidas na investigação.
A fotografia que motivou a nova iniciativa política teria sido registrada em abril de 2024, durante um evento em Londres. Na imagem, Gonet e Vorcaro aparecem em uma confraternização na qual havia charutos e bebidas sobre a mesa. Segundo as informações obtidas a partir do celular do ex-banqueiro, a foto foi encaminhada posteriormente a Vorcaro, em junho de 2025, pelo advogado Ciro Soares. A divulgação ganhou relevância porque Gonet já havia se manifestado publicamente sobre seu contato com o empresário. O procurador-geral afirmou que não mantinha relação de amizade ou interesse pessoal com Vorcaro e que o encontro ocorrido na capital britânica aconteceu em um evento com outras pessoas. Segundo a versão apresentada por Gonet, o contato foi breve e não envolveu conversas profissionais relacionadas ao Banco Master. A assessoria do advogado Ciro Soares também afirmou que o encontro ocorreu em 2024, período em que, segundo sua manifestação, não existia investigação contra Vorcaro relacionada aos acontecimentos posteriormente apurados. Assim, há uma diferença entre a interpretação política feita pelos autores dos pedidos de afastamento e a explicação apresentada pelo procurador-geral sobre o contexto da fotografia.
A discussão sobre a atuação de Gonet no caso, porém, antecede a divulgação da imagem. Informações extraídas durante as investigações envolvendo o Banco Master já haviam provocado questionamentos dentro e fora do Ministério Público, além de outros pedidos para que o procurador-geral não atuasse diretamente em procedimentos relacionados ao episódio. O Conselho Superior do Ministério Público Federal marcou para 25 de setembro a análise de um procedimento relacionado às referências a Gonet encontradas nas mensagens atribuídas a Vorcaro e a seus interlocutores. Paralelamente, a própria PGR adotou medidas administrativas relacionadas à condução dos processos: uma portaria publicada neste mês designou os subprocuradores-gerais André de Carvalho Ramos e Antonio Edilio Magalhães Teixeira para atuarem, em colaboração com o procurador-geral e o vice-procurador-geral, nos procedimentos judiciais e extrajudiciais ligados ao caso Master. A existência dessas providências demonstra que as questões decorrentes das mensagens estão sendo analisadas institucionalmente, mas não representa, isoladamente, confirmação de irregularidade por parte de Gonet.
Do ponto de vista institucional, o pedido apresentado por Nikolas também envolve uma discussão jurídica sobre os instrumentos disponíveis para afastar ou retirar um procurador-geral da República de suas funções. A Constituição Federal estabelece que o chefe do Ministério Público da União é nomeado pelo presidente da República, após aprovação da maioria absoluta do Senado, para mandato de dois anos, sendo permitida a recondução. Para a destituição definitiva antes do término desse mandato, o artigo 128, parágrafo 2º, determina que a iniciativa cabe ao presidente da República e deve ser previamente autorizada pela maioria absoluta dos senadores. O Regimento Interno do Senado também prevê a tramitação de mensagem presidencial destinada a solicitar essa autorização. O pedido apresentado ao STF por Nikolas, entretanto, trata de uma medida cautelar, e não diretamente do procedimento constitucional de destituição definitiva. Caberá ao Supremo avaliar o enquadramento jurídico da representação, sua admissibilidade e os limites de eventual providência judicial. Portanto, o simples protocolo do documento não significa que Gonet tenha sido afastado nem que a Corte tenha considerado procedentes os argumentos apresentados pelo deputado.
O caso deverá continuar no centro das discussões institucionais nos próximos dias, tanto pela repercussão da fotografia quanto pelo andamento das apurações envolvendo o Banco Master. De um lado, Nikolas Ferreira e outros parlamentares afirmam que os elementos divulgados justificam medidas destinadas a preservar a independência das investigações e defendem que a relação entre autoridades e Vorcaro seja esclarecida. De outro, Gonet rejeita a interpretação de que tenha mantido uma relação pessoal relevante com o ex-banqueiro e sustenta que o encontro registrado na fotografia ocorreu em ambiente social, com outras pessoas presentes e sem discussão de assuntos profissionais. A imagem confirma que ambos estiveram no mesmo evento, mas não permite, isoladamente, determinar a natureza ou a extensão de eventual relacionamento entre eles. Também não há, até o momento, decisão judicial definitiva estabelecendo responsabilidade de Gonet com base nesse encontro. O desenvolvimento da representação apresentada por Nikolas, a análise prevista no Conselho Superior do MPF e eventuais novos elementos provenientes das investigações deverão definir os próximos capítulos da discussão. Até que as autoridades responsáveis concluam essas análises, é necessário distinguir as informações comprovadas das acusações, interpretações políticas e argumentos apresentados pelas diferentes partes envolvidas.
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